Tecnologia começa a deixar o papel de assistente que responde a comandos para executar processos completos, mas avanço exige governança, segurança, qualificação e supervisão humana.
Após dois anos marcados pela popularização da inteligência artificial generativa, uma nova etapa começa a ganhar espaço nas empresas. Em vez de apenas produzir textos, resumir documentos ou responder perguntas, sistemas baseados em Agentes de IA passam a receber objetivos, interpretar contextos e executar tarefas em diferentes plataformas.
Na prática, a tecnologia pode ser utilizada para acompanhar indicadores, organizar documentos, monitorar prazos, atualizar sistemas, preparar relatórios, qualificar oportunidades comerciais e apoiar processos financeiros e administrativos. A execução depende, porém, das permissões concedidas, da qualidade dos dados e das regras estabelecidas pela organização.
Para Mauricio Frizzarin, fundador e CEO da QYON, essa mudança representa uma transformação mais ampla do que a simples evolução das ferramentas generativas. Na avaliação do executivo, as empresas estão deixando a fase da “IA que responde” para entrar na era da “IA que executa”.
“Deixamos de falar apenas de inteligência capaz de produzir conhecimento para falar de inteligência capaz de realizar parte do trabalho”, afirma Frizzarin.
Empresas estudam equipes híbridas
O movimento aparece entre as prioridades das lideranças. O Work Trend Index 2025, da Microsoft, elaborado a partir de uma pesquisa com 31 mil profissionais de 31 países, mostra que 82% dos líderes consideravam aquele um ano decisivo para repensar aspectos centrais da estratégia e das operações.
O levantamento também apontou que 81% esperavam integrar agentes de forma moderada ou ampla à estratégia de inteligência artificial de suas empresas nos 12 a 18 meses seguintes. A Microsoft utiliza o termo Frontier Firms para descrever organizações estruturadas em torno de equipes híbridas, formadas por profissionais e agentes inteligentes.
A perspectiva é que tarefas repetitivas e operacionais sejam parcialmente transferidas para sistemas automatizados, enquanto as equipes humanas concentram esforços em atividades que exigem análise, criatividade, negociação, relacionamento e tomada de decisão.
A consultoria McKinsey também analisa o surgimento das chamadas organizações agênticas. Nesse modelo, processos são redesenhados considerando a atuação conjunta de pessoas, sistemas tradicionais e agentes de inteligência artificial.
Mais do que automatizar tarefas isoladas, a proposta envolve reorganizar fluxos inteiros de trabalho. Isso pode alterar estruturas hierárquicas, responsabilidades, critérios de desempenho e até a maneira como as empresas dimensionam suas equipes.
Impactos para pequenas e médias empresas
Frizzarin avalia que os Agentes de IA podem produzir efeitos relevantes principalmente nas pequenas e médias empresas. Historicamente, o crescimento da operação exigia a ampliação proporcional das equipes. Com a automação de determinadas rotinas, esses negócios podem aumentar sua capacidade operacional sem necessariamente expandir a estrutura no mesmo ritmo.
Essa possibilidade, no entanto, não significa que os ganhos ocorrerão automaticamente. A adoção exige investimento em tecnologia, integração entre sistemas, revisão de processos e preparação dos profissionais. Empresas com dados fragmentados, procedimentos pouco definidos ou baixa maturidade digital podem encontrar dificuldades para implementar agentes de forma segura e eficiente.
Também permanece em aberto o impacto sobre o volume e o perfil das vagas. Algumas funções poderão ter tarefas reduzidas ou reorganizadas, enquanto outras devem surgir em áreas como treinamento de modelos, governança, segurança, análise de dados e supervisão de sistemas inteligentes.
Governança ganha importância
A capacidade de executar ações também amplia os riscos. Um sistema que apenas sugere uma resposta apresenta um nível de exposição diferente daquele que acessa informações, movimenta processos ou se comunica com clientes, fornecedores e colaboradores.
Por isso, governança, segurança da informação, proteção de dados, rastreabilidade e definição de responsabilidades tornam-se pontos centrais. A McKinsey destaca que, em organizações agênticas, os mecanismos de controle precisam funcionar de maneira contínua e que a responsabilidade final deve permanecer com as pessoas.
Para o RH e as lideranças, o desafio inclui definir quais atividades podem ser delegadas, quais decisões exigem participação humana e quais competências precisarão ser desenvolvidas. Também será necessário acompanhar os efeitos da automação sobre carga de trabalho, saúde emocional, empregabilidade e relações profissionais.
Frizzarin sustenta que a IA não elimina a necessidade de liderança. Ao contrário, pode aumentar sua relevância, uma vez que estratégia, julgamento, ética, criatividade e relacionamento continuam dependendo da atuação humana.
A promessa dos Agentes de IA é devolver tempo às equipes e ampliar a produtividade. A concretização desse potencial, entretanto, dependerá menos da capacidade técnica das ferramentas e mais da forma como cada organização combinará tecnologia, pessoas, governança e responsabilidade.

